A formação de novos condutores voltou ao centro das discussões após a aprovação, pelo Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN), da Resolução nº 1020/2025. A medida reduz drasticamente a carga mínima de aulas práticas, estabelecendo apenas duas horas obrigatórias para quem busca a Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
Apresentada como forma de baratear, acelerar e democratizar o acesso à habilitação, a resolução levanta uma questão central: é possível aprender a dirigir de forma segura e responsável com tão pouco tempo de prática?
Por décadas, o sistema brasileiro exigiu formação estruturada em Centros de Formação de Condutores. Agora, o país discute não apenas custos e burocracia, mas também o papel da educação no trânsito e os impactos da decisão na segurança viária. A nova regra reduz em até 90% a carga horária prática. A promessa é tornar o processo mais rápido e barato.
A redução extrema do tempo de prática acende preocupações. Em um país onde o trânsito ainda figura entre as principais causas de mortes evitáveis, especialistas afirmam que aprender a dirigir vai muito além de ligar o carro e executar manobras básicas. Conduzir exige percepção de risco, tomada de decisão rápida, controle emocional, leitura do ambiente urbano e respeito às regras, competências que se desenvolvem com repetição, orientação técnica e vivência real.
Com apenas duas horas de prática, o aluno mal tem tempo de se adaptar ao veículo, compreender comandos básicos, treinar frenagens e mudanças de marcha, além de vivenciar cenários variados, como cruzamentos complexos ou vias de fluxo intenso. O risco é formar condutores tecnicamente aprovados, mas emocionalmente e cognitivamente despreparados, o que pode refletir em aumento de sinistros.
Alessandro Silva, proprietário do CFC Êxito, tem se posicionado de forma crítica diante das recentes mudanças. Para ele, a redução da carga prática mínima traz impactos diretos na qualidade do ensino e na credibilidade do processo de habilitação no Brasil.
Segundo Alessandro, os CFCs precisarão se reinventar para sobreviver nesse novo cenário, mas alerta que a simplificação excessiva compromete a profissão de instrutor e a segurança dos alunos. “É preciso conscientizar que autoescola não é gasto, é investimento”, afirma. Ele critica ainda o fato de que instrutores podem atuar sem experiência prática e sem veículos com duplo comando, o que aumenta os riscos.
Na sua visão, o modelo atual de avaliação prática não garante que o candidato esteja plenamente preparado. Embora reconheça que processos sempre podem ser aprimorados, considera que a flexibilização facilita a habilitação de pessoas sem habilidade suficiente. “No longo prazo, isso pode resultar em um trânsito mais violento e em um número maior de vítimas”, alerta.
Alessandro defende alternativas para preservar a qualidade da formação, como a obrigatoriedade de veículos com duplo comando, vinculação dos instrutores a CFCs e manutenção dos diretores de ensino. “Flexibilizar é importante, banalizar jamais”, conclui.
Na mesma linha, Sandro Coimbra, educador e advogado especialista em trânsito, considera que duas horas de prática não são suficientes para desenvolver percepção de risco e comportamento seguro. “O aluno precisa primeiro dominar o veículo, o que só acontece após as aulas iniciais. Apenas colocar o carro em movimento não significa estar preparado para enfrentar situações reais de trânsito”, explica.
Coimbra alerta que a formação reduzida deixa de trabalhar habilidades fundamentais, como atenção simultânea ao tráfego, tomada de decisões rápidas e equilíbrio emocional diante de situações inesperadas. Para ele, a resolução reforça a lógica de “aprender apenas para passar na prova”, estimulando práticas informais e inseguras. “A má formação resultará em mais sinistros, óbitos e custos elevados em saúde e danos materiais”, projeta.
Sandro defende que é possível democratizar o acesso à CNH sem comprometer a qualidade da formação. Entre as alternativas, cita o tabelamento de preços das aulas, redução de taxas públicas e incentivos fiscais às entidades de formação. “Ampliar o acesso é necessário, mas não se pode confundir democratização com precarização da formação”, conclui.
A mudança reacende uma discussão recorrente: o sistema deve formar motoristas ou apenas preparar candidatos para passar na prova? Críticos como Alessandro e Sandro apontam que o novo modelo pode estimular o chamado “aprendizado selvagem”, em que o candidato aprende de forma informal, sem metodologia pedagógica e sem acompanhamento profissional. Esse cenário pode ampliar desigualdades, já que quem tem acesso a bons instrutores ou familiares experientes tende a aprender melhor, enquanto outros entram no trânsito com lacunas graves de formação.
O Brasil ainda registra milhares de mortes por ano no trânsito, e estudos indicam que o comportamento humano é fator predominante nos sinistros. Reduzir a formação prática sem fortalecer educação, fiscalização e avaliação rigorosa pode representar um retrocesso. Mais motoristas inseguros nas ruas afetam pedestres, ciclistas, motociclistas e sobrecarregam o sistema de saúde pública.
Defensores da mudança argumentam que o modelo anterior não garantia qualidade e que a flexibilização abre espaço para inovação e redução de custos abusivos. Já os especialistas em trânsito, como Alessandro e Sandro, alertam que baratear não pode significar banalizar a formação. Ambos defendem alternativas que ampliem o acesso sem comprometer a segurança.
A discussão, portanto, não é apenas sobre horas-aula, mas sobre qual modelo de educação o Brasil deseja construir, um sistema mínimo, voltado à formalidade, ou um processo consistente, capaz de formar condutores conscientes e preparados para a realidade das ruas.
A redução para duas horas de prática é uma das mudanças mais profundas já feitas na formação de condutores no país. Seus efeitos ainda serão sentidos ao longo do tempo, mas o debate já está posto: é possível formar bons motoristas com tão pouco preparo?
Enquanto o país busca soluções para ampliar o acesso à CNH, especialistas como Alessandro e Sandro reforçam que a segurança viária não pode ficar em segundo plano. Dirigir não é apenas um direito, mas uma responsabilidade que impacta vidas diariamente.
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