A Polícia Rodoviária Federal (PRF) encerrou a Operação Carnaval 2026, realizada entre os dias 13 e 18 de fevereiro, registrando 1.241 sinistros de trânsito, 130 mortes e 1.481 feridos nas rodovias federais. Em comparação com 2025, quando foram contabilizados 1.190 sinistros, 85 mortes e 1.433 feridos, os números mostram um aumento de 4,3% nos sinistros, 3,3% nos feridos e 8,5% nos sinistros graves, que passaram de 316 para 343. A maioria das vítimas estava em automóveis e motocicletas. Apesar do reforço no policiamento e das ações preventivas, a PRF identificou que parte dos sinistros mais graves, inclusive com múltiplas mortes, ocorreu em trechos que não eram considerados críticos. A operação, uma das maiores mobilizações do calendário da corporação, também marcou o encerramento da Operação RODOVIDA, iniciativa nacional voltada à redução de sinistros e à promoção de um trânsito mais seguro durante o Natal, Ano Novo e Carnaval.
Com foco na prevenção de condutas de risco, como dirigir após consumir álcool, exceder a velocidade permitida e realizar ultrapassagens proibidas, a PRF fiscalizou 326.548 pessoas e veículos e realizou 118.321 testes de alcoolemia. Ao todo, 2.400 motoristas foram autuados por dirigirem sob efeito de álcool ou por se recusarem a fazer o teste do etilômetro, e 108 foram presos por embriaguez ao volante. A fiscalização também registrou 55.582 imagens de veículos acima do limite de velocidade. Além disso, 8.670 motoristas foram multados por não usar cinto de segurança ou transportar crianças sem cadeirinha, 9.263 por ultrapassagens irregulares e 1.954 por conduzir motocicletas sem capacete. A PRF reforça que a redução da violência no trânsito depende não apenas da intensificação da fiscalização, mas também da mudança de comportamento dos condutores, podendo contar com apoio da Força Nacional de Segurança Pública em situações emergenciais nas rodovias federais.
Casos emblemáticos ilustram a gravidade da situação. O tombamento de um ônibus na BR-153, entre Ocauçu e Marília no Estado de São Paulo, deixou seis mortos e 46 feridos, revelando falhas na fiscalização, já que o veículo não possuía autorização da ANTT para transporte interestadual. Em Goiás, foram registrados 44 sinistros e cinco mortes apenas nas rodovias federais locais, mostrando que o problema se espalha por diferentes regiões do país e não se restringe às grandes capitais. Esses episódios reforçam a percepção de que a fiscalização, embora intensificada, ainda não consegue impedir a circulação de veículos irregulares e tampouco reduzir práticas de risco que se repetem em larga escala.
O impacto dos sinistros não se limita às estatísticas viárias. O Sistema Único de Saúde foi diretamente pressionado, com hospitais de referência relatando superlotação em prontos-socorros e alta demanda por cirurgias ortopédicas e atendimentos emergenciais. Além do custo humano, há um peso econômico elevado, que envolve despesas médicas, afastamentos do trabalho e invalidez permanente, gerando perdas produtivas e previdenciárias. O carnaval, portanto, não é apenas um período de festa e celebração, mas também um momento em que o sistema público de saúde e segurança é colocado à prova, revelando suas limitações diante de um volume tão elevado de ocorrências.
O aumento dos sinistros no Carnaval reacende o debate sobre a formação de motoristas no Brasil. A recente mudança no modelo de retirada da CNH, que extinguiu a obrigatoriedade de aulas presenciais em autoescolas e permitiu a formação teórica via aplicativo, levanta preocupações sobre a qualidade da preparação dos condutores. Embora o novo sistema seja defendido como mais acessível e barato, especialistas alertam que a flexibilização pode comprometer a percepção de risco e a responsabilidade no trânsito. Em um contexto de alta mortalidade viária, como o registrado neste Carnaval, a crítica é inevitável, modernizar não pode significar simplificar a ponto de colocar vidas em risco.
O Brasil vive um paradoxo. De um lado, busca modernizar a formação de condutores com a CNH digital e autoinstrucional; de outro, enfrenta índices crescentes de sinistros e mortes nas estradas. O Carnaval de 2026 mostrou que a pressa em implementar mudanças sem garantir qualidade e fiscalização pode ter consequências trágicas. A formação de motoristas não pode ser tratada apenas como um processo burocrático ou digital. Ela é, sobretudo, uma política de segurança pública. Reduzir etapas de aprendizado e flexibilizar exigências pode significar colocar motoristas menos preparados em estradas já sobrecarregadas e perigosas. Se o objetivo é democratizar o acesso, é preciso fazê-lo sem abrir mão da responsabilidade de proteger vidas.
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