O episódio envolvendo o senador Alexandre Luiz Giordano, flagrado pela Polícia Militar dirigindo com a CNH vencida e um veículo sem placas na capital paulista, trouxe à tona uma realidade recorrente nas ruas e estradas do país. Segundo a corporação, o parlamentar se recusou a apresentar documentos, abandonou a abordagem ao invadir o passeio e foi localizado logo em seguida com apoio de outras equipes. O caso, que teve ampla repercussão, vai além da figura pública envolvida e evidencia um comportamento que se repete entre milhares de condutores brasileiros.
Dirigir com a Carteira Nacional de Habilitação irregular é mais comum do que se imagina. Seja por vencimento do documento, suspensão por pontos ou até cassação, muitos motoristas continuam circulando normalmente, ignorando ou desconhecendo a própria situação. Esse cenário revela uma combinação de fatores que incluem desatenção, falta de informação e, em alguns casos, uma percepção equivocada sobre a gravidade dessas infrações.
A suspensão da CNH, por exemplo, geralmente não ocorre de forma repentina. Ela é resultado do acúmulo de infrações ao longo do tempo. Condutas consideradas corriqueiras, como exceder o limite de velocidade, utilizar o celular ao volante ou avançar o sinal vermelho, contribuem diretamente para o aumento da pontuação. Quando o limite é atingido, o direito de dirigir é suspenso. Ainda assim, muitos condutores afirmam não ter percebido esse processo, seja por não acompanharem a pontuação, seja por não receberem ou não darem atenção às notificações enviadas pelos órgãos de trânsito.
Esse distanciamento entre o motorista e a sua situação documental é um dos principais problemas apontados por especialistas. A falta de acompanhamento regular da CNH faz com que penalidades importantes passem despercebidas, criando uma falsa sensação de regularidade. Em muitos casos, o condutor só toma conhecimento da suspensão ao ser abordado em uma fiscalização.
A situação da CNH vencida, embora mais simples, também reflete um padrão de descuido. Mesmo com prazos de validade ampliados nos últimos anos, que podem chegar a até dez anos dependendo da idade do condutor, ainda é comum que a renovação seja negligenciada. Muitos motoristas desconhecem que existe um limite de 30 dias após o vencimento para regularização sem penalidade. Após esse período, dirigir passa a ser considerado infração gravíssima, com multa e retenção do veículo.
Esse comportamento é observado em diversas regiões do país. Em cidades como Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, dados do Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN-SP) mostram que, em 2024, centenas de motoristas tiveram a CNH suspensa ou cassada. Somente no município, foram 605 habilitações suspensas e 195 cassadas. Já em Franca, também no Estado de São Paulo, foram 189 suspensões e 108 cassações. Ao todo, as duas cidades somaram 1.097 penalidades aplicadas no ano, em sua maioria relacionadas a infrações graves.
No Distrito Federal, os números também reforçam o cenário preocupante. Dados do DETRAN-DF apontam que 2.776 motoristas entraram em processo de suspensão da habilitação em março de 2026, um recorde. A maioria dos casos envolve direção sob efeito de álcool ou recusa ao bafômetro, além de infrações graves. Só neste ano, já são 2.819 suspensões, alta de 58% em relação ao mesmo período de 2025. Os dados reforçam que o problema não está restrito a grandes capitais, mas faz parte de uma realidade nacional que envolve diferentes perfis de condutores.
Outro ponto relevante é a baixa percepção de risco associada a esse tipo de irregularidade. Muitos motoristas tratam a habilitação como um documento meramente burocrático, deixando em segundo plano sua importância para a segurança viária. No entanto, a CNH representa a autorização legal para conduzir um veículo, baseada em critérios técnicos e legais. Ignorar sua validade ou restrições significa desrespeitar todo o sistema que regula o trânsito.
As consequências dessa prática podem ser significativas. Além das multas e do acúmulo de pontos, dirigir com a CNH irregular pode trazer implicações mais graves em caso de sinistros. O condutor pode enfrentar dificuldades com seguradoras, responder civil e criminalmente e, no caso de suspensão, ter a penalidade agravada com a cassação da habilitação. Nesse cenário, o motorista precisa reiniciar todo o processo de habilitação, o que demanda tempo e custos adicionais.
Apesar disso, evitar esse tipo de situação não exige medidas complexas. A adoção de hábitos simples pode fazer diferença significativa. Acompanhar regularmente a pontuação da CNH, manter os dados atualizados junto aos órgãos de trânsito e respeitar os prazos de renovação são atitudes fundamentais. Além disso, o respeito às normas de trânsito continua sendo o principal fator para evitar penalidades e contribuir para um ambiente viário mais seguro.
O avanço dos serviços digitais também tem facilitado esse acompanhamento. Hoje, é possível consultar informações sobre a CNH, infrações e prazos de forma rápida por meio de aplicativos e plataformas online. Ainda assim, a tecnologia só é eficaz quando há interesse e iniciativa por parte do condutor em manter sua situação regular.
O caso recente envolvendo o senador serve como um alerta e, ao mesmo tempo, como um retrato de uma realidade mais ampla. Ele demonstra que a irregularidade na CNH não está associada a um perfil específico, mas sim a uma cultura de desatenção que atravessa diferentes camadas da sociedade. O episódio evidencia a importância da conscientização e da responsabilidade individual no trânsito.
Diante desse cenário, a recorrência de habilitações irregulares deixa de ser um problema pontual e passa a refletir um padrão de comportamento que desafia a gestão do trânsito no país. Entre fiscalização mais rigorosa e avanços tecnológicos, o fator decisivo ainda é a conduta do motorista. Sem atenção aos prazos, às regras e às penalidades, a irregularidade tende a persistir como um risco silencioso nas vias, com impactos diretos na segurança e na organização do tráfego.
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